terça-feira, 16 de junho de 2009

Um poema e suas imagens

Nunca fui fã do ato de se ilustrar um poema, pois sempre acreditei que a beleza da leitura desse gênero de texto encontra-se na sua potencialidade de permitir ao leitor que se forme uma imagem a partir de sua interpretação. Portanto, publicar um poema ilustrado é, na minha opinião, privar o leitor do maior prazer que um poema pode oferecer. Todo poema já costuma ser visual e, por isso, dispensa ilustração que não seja a do próprio leitor.

A ilustração é a releitura de todo texto que pretende ilustrar, portanto influencia na sua interpretação. Um poema, acompanhado de ilustração, não impede o leitor de construir mentalmente uma imagem, na medida em que lê seus versos, mas antecipa um resultado que se obteria somente após sua leitura.

Leitura é algo subjetivo, portanto cada um tem o direito de visualizar o que quiser. Se o poema cita uma casa, é importante que cada leitor imagine a casa que melhor lhe satisfaça. É por isso que não se vê livros de poemas que são ilustrados! Algum editor já havia percebido isso há mais tempo que eu.

Tentando me contrariar, ao ler o poema “Tecendo a manhã”, de João Cabral de Melo Neto, me senti incentivado a criar um desenho, de tão forte que foi o impacto da visualização da cena que oferece. Não pude me conter. Mas, depois de pronto o desenho, sou obrigado a reconhecer que nenhuma ilustração conseguirá ser mais bonita que os versos do poema.

Realmente, nem sempre uma imagem vale mais que mil palavras...




Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(João Cabral de Melo Neto, Antologia Poética, José Olympio Editora, 1986.)

Detalhe importante: eu NÃO sou atleticano, pelo amor de Deus!!! :-)
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